
A Bíblia apresenta o casamento como uma aliança sagrada instituída por Deus, na qual um homem e uma mulher deixam a família de origem e se tornam "uma só carne" (Génesis 2:24)1. Em Portugal, onde 80,2% da população se declarou católica nos Censos 2021 do INE2, estes fundamentos bíblicos continuam a moldar a forma como muitos casais entendem o matrimónio, quer casem pela Igreja, quer casem apenas pelo civil.
A origem do casamento na Bíblia
O casamento nasce no livro do Génesis, como a primeira instituição criada por Deus para a humanidade. Antes de qualquer governo, templo ou estrutura social, o relato da criação apresenta a união do homem e da mulher como o alicerce da vida em comum.
No relato da criação, depois de formar o homem, Deus reconhece a sua solidão: "Não é conveniente que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele" (Génesis 2:18)1. É neste enquadramento que a Escritura introduz a mulher e a união conjugal.
A passagem que define o casamento bíblico está em Génesis 2:24:
"Por esse motivo, o homem deixará o pai e a mãe, para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne."
Este versículo estabelece três elementos essenciais do casamento bíblico:
- Deixar — separação da família de origem para formar um novo núcleo familiar.
- Unir-se — compromisso exclusivo e permanente com o cônjuge.
- Tornar-se uma só carne — intimidade física, emocional e espiritual.
Principais versículos sobre o casamento
A Bíblia contém vários versículos que orientam os cristãos sobre o matrimónio. A tabela reúne os mais citados e o seu significado:
| Referência | Tema central | Ensinamento |
|---|---|---|
| Génesis 2:24 | União | O homem e a mulher tornam-se uma só carne |
| Mateus 19:6 | Indissolubilidade | "O que Deus uniu não o separe o homem" |
| Efésios 5:25 | Amor que se entrega | "Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja" |
| Efésios 5:21 | Respeito mútuo | Sujeição e consideração recíprocas no temor de Cristo |
| 1 Coríntios 13:4-7 | Definição do amor | O amor é paciente, benigno e tudo suporta |
| Provérbios 18:22 | Bênção | Quem encontra uma esposa encontra a felicidade |
| Hebreus 13:4 | Honra | O matrimónio deve ser honrado por todos |
Estes versículos formam a base teológica do entendimento cristão do matrimónio e são frequentemente usados em cerimónias, convites e votos.
Princípios bíblicos do casamento
As Escrituras estabelecem princípios que devem guiar o casamento cristão. Estes princípios atravessam culturas e épocas, mantendo-se relevantes para os casais de hoje:
| Princípio | Base bíblica | Aplicação prática |
|---|---|---|
| União permanente | Mateus 19:6 | Compromisso para toda a vida, resistência nas dificuldades |
| Amor que se entrega | Efésios 5:25 | Colocar o bem do cônjuge à frente do próprio |
| Fidelidade | Êxodo 20:14; Hebreus 13:4 | Lealdade física e emocional na relação |
| Respeito mútuo | 1 Pedro 3:7; Efésios 5:33 | Honrar o cônjuge em palavras e em atos |
| Companheirismo | Eclesiastes 4:9-12 | Parceria em todas as áreas da vida |
O princípio do amor que se entrega ocupa um lugar central. Paulo pede aos maridos que amem as suas mulheres "como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela" (Efésios 5:25)1. Este amor não assenta em sentimentos passageiros, mas numa decisão consciente de servir e cuidar do outro ao longo do tempo.
O que Deus espera do casamento
Segundo a teologia cristã, Deus criou o casamento com propósitos que vão além da simples convivência entre duas pessoas. A tradição bíblica destaca quatro dimensões.
Companheirismo — Deus reconhece que não é bom o ser humano estar só (Génesis 2:18). O casamento oferece intimidade emocional e apoio mútuo que enriquece a vida de ambos os cônjuges.
Fecundidade e educação dos filhos — O mandamento "crescei e multiplicai-vos" (Génesis 1:28) aponta a dimensão geradora do casamento. O Deuteronómio acrescenta a responsabilidade dos pais na formação dos filhos (Deuteronómio 6:6-7).
Reflexo do amor de Cristo — O Novo Testamento apresenta o casamento como imagem da relação entre Cristo e a Igreja (Efésios 5:31-32). Esta dimensão eleva o matrimónio a uma representação do amor divino.
Santificação mútua — O casamento é também um espaço de crescimento espiritual, em que cada cônjuge contribui para o bem do outro através do amor, do perdão e do encorajamento diários.
O casamento no Novo Testamento
Os ensinamentos de Jesus
Jesus reforça a importância do casamento ao citar diretamente o Génesis quando os fariseus o interrogam sobre o divórcio. Recorda que o Criador, "desde o princípio, fê-los homem e mulher", e conclui: "o que Deus uniu não o separe o homem" (Mateus 19:4-6)1.
O primeiro sinal público de Jesus aconteceu num casamento, nas bodas de Caná, onde transformou água em vinho (João 2:1-11). A escolha deste cenário sublinha o valor que atribuía à celebração matrimonial.
Os ensinamentos de Paulo
O apóstolo Paulo dedicou trechos extensos das suas cartas ao casamento, com orientações concretas para a vida do casal:
- Efésios 5:22-33 — os deveres recíprocos de marido e mulher, com ênfase no amor que se entrega.
- 1 Coríntios 7 — orientações práticas sobre casamento, celibato e vida conjugal.
- Colossenses 3:18-19 — síntese dos deveres mútuos dentro do lar.
Paulo reconhecia também o valor do celibato para quem a ele fosse chamado (1 Coríntios 7:7-8), mas considerava preferível casar a viver dominado pelo desejo, para quem não tivesse esse dom (1 Coríntios 7:9).
Casamento católico e casamento civil em Portugal
Em Portugal, um casal cristão pode casar pela Igreja ou apenas pelo civil, e o casamento católico produz efeitos civis desde que seja transcrito no registo civil. A tabela resume as principais diferenças.
| Aspeto | Casamento católico | Casamento civil |
|---|---|---|
| Natureza | Sacramento e aliança perante Deus | Ato jurídico perante o Estado |
| Quem celebra | Sacerdote (pároco) | Conservador do registo civil |
| Onde | Igreja ou paróquia | Conservatória ou local à escolha |
| Preparação | Curso de Preparação para o Matrimónio (CPM) | Processo preliminar na conservatória |
| Efeitos civis | Sim, mediante transcrição no registo civil | Imediatos, com a assinatura do assento |
| Base | Direito canónico e Concordata de 2004 | Código Civil |
O casamento católico e os efeitos civis
Ao abrigo da Concordata de 2004, o Estado português reconhece efeitos civis aos casamentos celebrados segundo as leis canónicas, desde que o assento seja transcrito para os livros do registo civil (artigo 13.º)3. Se a transcrição for feita no prazo de sete dias, o casamento produz todos os efeitos civis desde a data da celebração (artigo 14.º)3. Por isso não é necessário casar duas vezes: a mesma cerimónia religiosa gera o vínculo civil.
Outras confissões cristãs
Desde 2007, os casamentos celebrados por ministros de igrejas ou comunidades religiosas radicadas no País também podem produzir efeitos civis, ao abrigo do artigo 19.º da Lei da Liberdade Religiosa4. Abrange, por exemplo, comunidades evangélicas reconhecidas. Os nubentes declaram a intenção no pedido de publicações, na conservatória, e o casamento é depois transcrito no registo civil.
Preparação para o casamento católico: o CPM
Os noivos que casam pela Igreja Católica em Portugal frequentam um Curso de Preparação para o Matrimónio (CPM), promovido pela Federação dos Centros de Preparação para o Matrimónio, presente em quase todas as dioceses do País5.
O percurso desenvolve-se em seis sessões temáticas: "Uma comunidade de amor", "Matrimónio – Sacramento", "Diálogo e gestos de amor", "A fecundidade do casal", "Nova situação – Novas exigências" e "O amor ao longo da vida"5. Cada encontro combina reflexão dos noivos, testemunho de casais e a orientação de um assistente.
O objetivo não é meramente burocrático: procura ajudar o casal a preparar-se para a vida a dois — comunicação, projeto comum, dimensão espiritual — antes do dia da cerimónia. Convém iniciar a preparação com vários meses de antecedência, articulando-a com a marcação na paróquia.
O casamento como aliança
Ao contrário de um contrato que se pode romper sob certas condições, a Bíblia apresenta o casamento como uma aliança — um compromisso solene diante de Deus e de testemunhas. O profeta Malaquias exprime a seriedade desta aliança quando Deus manifesta reprovação pelo divórcio (Malaquias 2:14-16).
Esta visão do casamento como aliança implica quatro traços:
- Permanência — compromisso até que a morte separe os cônjuges.
- Testemunhas — reconhecimento público da união.
- Responsabilidade — prestação de contas perante Deus.
- Bênção divina — a presença de Deus na vida do casal.
Para os casais que preparam o seu casamento em Portugal, compreender estes fundamentos bíblicos ajuda a construir uma base sólida para uma união duradoura e com sentido.
Fontes e Referências
Footnotes
-
Bíblia Sagrada (edição da Difusora Bíblica — Missionários Capuchinhos), texto consultado em paroquias.org, 2026. https://www.paroquias.org/biblia/ ↩ ↩2 ↩3 ↩4
-
Agência ECCLESIA, Censos 2021 mostram 80,2% de católicos em Portugal (dados do INE — Instituto Nacional de Estatística), 2022. https://agencia.ecclesia.pt/portal/sociedade-censos-2021-mostram-80-2-de-catolicos-em-portugal/ ↩
-
República e Laicidade, Concordata de 2004 entre a República Portuguesa e a Santa Sé (artigos 13.º e 14.º), 2004. https://www.laicidade.org/legislacao/portugal/concordata-de-2004/ ↩ ↩2
-
Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa, Lei n.º 16/2001 (Lei da Liberdade Religiosa), artigo 19.º — casamento por forma religiosa, 2001. https://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?nid=806&tabela=leis ↩
-
CPM-Portugal, Quem somos — Federação dos Centros de Preparação para o Matrimónio, 2026. https://cpm-portugal.pt/WP/quem-somos/quem-somos/ ↩ ↩2